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For junho, 2015

Mulheres além da Era Vitoriana

frases-rainha-vitoria-trechos-de-seus-diarios-3Um tempo marcado pelo reinado de uma mulher forte. Rainha Vitória reinou por 25 anos e teve sua época caracterizada por intensa industrialização e urbanização, em suma, o início de uma mudança social. Nos séculos passados, as pessoas permaneciam onde nasciam, em suas mesmas comunidades, mas isso mudou durante a Era Vitoriana: as pessoas agora podiam sair do campo em busca de uma vida diferente nas cidades.

Os antigos senhores de engenho deram um salto na sociedade, se tornaram membros da nova classe média industrializada, além é claro, dos médicos, dos advogados etc. Esses novos membros dessa nova classe média se viram marcados por valores que os distinguiam da aristocracia, mas também os separava da classe trabalhadora abaixo deles. Essa identidade foi construída sob uma respeitabilidade moral e domesticidade.

O papel da mulher foi central na construção desses valores. O ideal feminino se erguia sob a rotulação da “Missão Feminina”, elas agora eram vistas como as guardiãs da moral, o que significava ser uma mãe, mulher e filha exemplar. A pureza da mulher era a garantia do lar como um “céu”, a fonte da estabilidade social e a proteção de sua família.

O papel da mulher limitava-se aos afazeres domésticos, aos compromissos sociais, organização de bailes. Elas eram lapidadas para se transformarem em verdadeiras damas: aprendiam piano, tinham aula de línguas estrangeiras como o francês e italiano. A vida na cidade era vista como perigosa e, por isso, às mulheres respeitáveis era guardada a santidade do lar, logo a maior parte delas era dona de casa.

Os anos passaram e a revolução industrial se tornou uma realidade cada vez mais estabelecida. Anos mais tarde a primeira guerra mundial se instalaria e os homens que trabalhavam nessas fábricas seriam chamados para servir seu país. Como ficariam a indústria e as famílias que viviam da renda que esses homens produziam? A solução foi inesperada, mas inevitável: as bravas mulheres tomaram os lugares de seus maridos nessas fábricas, foram para sua luta particular, trabalhar e cuidar de seus filhos (muitas fábricas possuíam crianças correndo por seus corredores e também trabalhando).

Foi nesse ponto crucial da história que a libertação feminina começou. Os primeiros movimentos feministas concretos, que exigiam maior participação da mulher na vida pública, nasceram. A guerra serviu como o estopim de um movimento histórico que mudou o papel feminino no mundo.

Muitas de nossas autoras fizeram parte dessa época. Elizabeth Gaskell e as irmãs Brontë são as que, mesmo vivendo na Era Vitoriana, denunciavam a condição feminina em suas obras. Suas personagens são mulheres fortes que questionam a realidade na qual estão inseridas.

Alice no País das Maravilhas: Uma crítica à Inglaterra vitoriana

Embora muitos ainda considerem o livro Alice no País das Maravilhas infantil, ele não é apenas um livro para criança. (A verdade é que é muito difícil classificar um livro como para o público infantojuvenil ou para o público adulto, mas, na data de seu lançamento, seu público principal era o infantil, sem dúvida.) O que talvez a maioria das pessoas não saiba é o porquê desse livro ultrapassar a sua classificação inicial e ter se tornado um clássico da literatura mundial, mais apreciado a cada ano que passa, completando agora 150 anos.

A história de Alice sempre mCharles Dodgsone incomodou. Parecia que havia “algo mais” ali. Esse sentimento me levou a estudá-la, mostrando no meu trabalho de graduação que este livro tem uma mensagem que extrapola o significado da história aparentemente sem muito sentido, com coisas malucas e diálogos que não seguem a estrutura a qual estamos acostumados. Há muito mais em Alice do que uma primeira leitura possa mostrar. Os leitores que quiserem se deter na história narrada de uma menina entediada que vai atrás de um coelho branco e se envolve em uma aventura com personagens extraordinários encontrará em Alice um ótima escolha. Mas aqueles leitores que quiserem ir além das aparências e se aventurarem, de fato, num mundo que tem muito para contar sobre o ser humano e sua condição não se decepcionarão em nada com a história de Lewis Carroll.

Entender Alice é compreender a Inglaterra vitoriana. Em poucas palavras, podemos dizer que era uma época conservadora, de princípios morais rígidos, ao mesmo tempo em que era inovadora no campo tecnológico, o que levou à Revolução Industrial e a mudanças sociais com o aparecimento da burguesia. Nesse cenário, surgiu uma literatura com duas características principais: ou era pedagógica – no sentindo claro de ensinar uma lição ao seu público – ou era moralizante – no sentido de mostrar os problemas sociais que precisavam ser tratados. É desse período Charles Dickens, um dos autores mais importantes da prosa vitoriana, que, por meio de suas obras, criticou grande parte das instituições públicas da Inglaterra.

Olhando para a obra de Lewis Carroll percebemos que ela destoa do que estava sendo produzido por seus contemporâneos. Ela não apresenta nem o caráter pedagógico e muito menos o moralizante. É aí que encontramos a crítica de Carroll à sociedade de seu tempo – em seu livro, sua personagem é livre para escolher a aventura. Alice começa a história entediada; vai atrás do diferente, do interessante, presente no personagem do Coelho Branco (rompendo com os padrões esperados para as crianças vitorianas); enfrenta figuras que representam autoridade (como a Rainha de Copas); volta para a sua realidade e não é punida pela ousadia de se aventurar. Vale lembrar que na sociedade vitoriana a punição era uma realidade constante tanto para crianças quanto para adultos, que tinham um padrão moral puritano alto para ser seguido se quisessem ser cidadãos-modelo do Império Britânico. Esperava-se que a ousadia, o buscar o diferente, fosse punido.

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Lewis Carroll rompe o modelo de literatura praticado em seu tempo não só por meio da sua narrativa que quebra o padrão, como também usando o nonsense, uma crítica ao sentido único, ao racionalismo, àquilo que julgamos ser normal. Carroll nos faz questionar o padrão por meio da linguagem. Daquilo que parece o caos emerge um sentido possível, construído pelo leitor, não imposto a ele. O nonsense representa na linguagem a libertação da opressão de um discurso fixo, monótono, padrão. Além disso, Carroll faz o que era inimaginável para a sua época: uma crítica à Rainha Vitória. A Inglaterra já era uma monarquia parlamentarista, o que significa dizer que era (e ainda é) governada pelo primeiro-ministro e pelo parlamento, sendo a rainha uma figura representativa de poder. A rainha Vitória foi uma soberana muito popular, por isso esse período recebe o nome de vitorianismo. Portanto, fazer críticas diretas à rainha era algo impensável. Mas Carroll faz justamente isso por meio da figura Rainha de Copas, que, dentro do sistema “maluco” que é o País das Maravilhas, quase não tem poder de decisão, como a Rainha Vitória dentro da monarquia parlamentarista. Os seres mágicos a temem, mas as suas ordens de decapitação nunca são cumpridas. E a Rainha de Copas, em vários momentos da narrativa, é chamada apenas de rainha, reforçando a possibilidade de interpretação do termo “Rainha” como se referindo também à rainha Vitória.

Processed with VSCOcam with 6 presetAssim, podemos dizer que Alice não é uma obra escrita com o propósito de moralizar e manipular o leitor, levando-o a acreditar que certo padrão é correto e aceitável, ou que certas atitudes devem ser realizadas. Nesse ponto, notamos claramente a influência do nonsense, que subverte um sentido único e contesta a divisão do mundo em dois lados fixos, instaurando um sentido paralelo, que esconde, atrás da loucura e da irracionalidade, a sua crítica. Por fugir desse padrão moralizante e pedagógico, Alice no País das Maravilhas pode ser lido como uma crítica ao vitorianismo opressor, sendo o nonsense uma crítica à realidade rígida.

É no desvio do modelo e no estranhamento, que traz para o leitor uma nova possibilidade de mundo, que o livro de Carroll é um convite à reflexão. Entre você também nessa aventura e, junto com Alice, descubra um mundo muito mais complexo do que você imaginava!

 

Bruna Perrella Brito trabalha como preparadora de texto no departamento de Literatura Infantojuvenil e Projetos Especiais da editora FTD. É formada em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e cursa especialização em Educação Infantil.

Nova autora na casa

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Pintura retrato de Elizabeth Gaskell

Temos muita felicidade em apresentar aos nossos queridos leitores nossa mais nova autora, Elizabeth Gaskell. Publicar um livro de Gaskell é uma antiga vontade nossa e ainda mais sua magnífica obra, Norte e Sul.

Elizabeth nasceu em 1810 em Chelsea, um condado que ficava nos arredores de Londres. Após perder a mãe com três meses de idade, seu pai, sem ver alternativas, envia a jovem para viver com a sua tia materna em Cheshire.

Sem possuir riquezas ou residência fixa, seu futuro não parecia muito promissor, porém eis que Elizabeth conhece William Gaskell, um ministro da Cross Street Chapel e também escritor e poeta.

Então casada, Gaskell se estabelece em Manchester, uma área industrial que lhe renderia inspiração para seus romances. Após a morte traumática de um de seus filhos, William recomenda à esposa que ela escreva como uma forma de distração. A família muda-se para Plymouth Grove e lá Elizabeth escreve todos os seus livros. Gaskell viveria em Plymouth até o fim de seus dias.

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Elizabeth Gaskell

Gaskell foi uma mulher que conseguiu driblar as adversidades da vida. Saiu da pobreza, superou o trauma de não viver com sua família e casou-se com um homem que a apoiava, o que era muito incomum para a época em que viveu. E novamente, na vida adulta, de uma grande tragédia conseguiu colher bons frutos e se tornar uma escritora admirável.

Norte e Sul é um romance sobre Margaret Hale, uma mulher forte – talvez o próprio retrato de Gaskell – filha de um ministro religioso que se muda para a cidade de Milton, no norte da Inglaterra. Margaret vê o sul, lugar onde nasceu como símbolo do idílio rural, o triunfo da harmonia social e do decoro. Imagem que se contrapõe com o norte e seu ambiente sujo, rude e violento. A protagonista se depara com a difícil realidade da população local, encontra novas amizades e o surgimento de uma crescente atração por John Thornton, dono de uma fábrica têxtil.

Neste romance social, Elizabeth Gaskell tenta demonstrar a vida e os conflitos existentes no norte industrializado no início da Revolução Industrial, através das impressões de uma jovem nascida nas regiões rurais da Inglaterra.

Nós, da Martin Claret temos orgulho de incluir essa maravilhosa mulher em nosso catálogo.

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Nossa edição Norte e Sul

 

Alice e seus 150 anos

IMG_2851Em julho deste ano a grande obra da literatura inglesa, Alice no país das maravilhas, completa 150 anos. Escrita por Charles Lutwidge Dodgson, que ficou conhecido com o pseudônimo Lewis Carroll (o pseudônimo foi criado seguindo uma ordem lógica, Charles traduziu o inglês “Charles Lutwidge” para o latim, formando Ludovicus Carolus e depois este para o inglês, criando Lewis Carroll), romancista, poeta, desenhista, fotógrafo, matemático e reverendo anglicano, um homem a frente de seu tempo. Com inteligência para o campo das humanas e das exatas, Lewis conseguiu dar aulas de matemática em Oxford e escrever as aventuras de Alice.

A história de Alice teve origem em 1862 quando Carroll passeava de barco pelo rio Tâmisa com sua pequena amiga Alice Pleasance Liddell e suas duas irmãs. As três meninas eram filhas do então reitor da Christ Church.

mHvlQPRW30bx8Lk3UxV6si7XYPSEm 1864, Carroll lança um manuscrito chamado As Aventuras de Alice Embaixo da Terra. E apenas mais tarde, quando decidiu publicá-lo em forma de livro, ele mudou a versão original, alterando o título, aumentando de 18 mil palavras para 35 mil e acrescentando cenas como a do Gato de Cheshire e do Chapeleiro. A obra tornou-se um grande sucesso e foi lida por Oscar Wilde, pela rainha Vitória e traduzida para mais de 50 idiomas.

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Cena de Alice au Pays des Merveilles

Esse fenômeno da literatura infanto-juvenil já ganhou inúmeras adaptações para o cinema, a primeira delas é de 1903 e foi dirigida por Cecil Hepworth e Percy Stow. O filme é mudo e em preto e branco, mas conta com alguns efeitos especiais. Em 1949 veio outro filme, uma versão francesa dirigida por Lou Bunin, Alice au pays des merveilles, no entanto, o lançamento dessa versão foi prejudicado, pois logo em seguida, em 1951, o grandioso estúdio Walt Disney Animation lançaria Alice in Wonderland. Essa animação não fez muito sucesso no ano de sua estreia, porém, na década de 1970, ela foi muito mais assistida por conta do seu conteúdo psicodélico. Em 1972, surge um musical, Alice’s Adventures in Wonderland, a produção britânica com 24 canções ganhou o prêmio de Melhor Fotografia no BAFTA Film Award. Em 1982, Meryl Streep estrelou outro musical, esse foi produzido especialmente para a TV e exibido pela NBC, a produção ganhou uma indicação ao prêmio Emmy. Após 1982, muitas outras adaptações surgiram, entre elas uma versão cult produzida na antiga Tchecoslováquia e uma série de TV criada pelo Disney Channel onde Alice é uma estudante que, ao chegar do colégio, atravessa um espelho e cai no País das Maravilhas.

Alice-no-Pais-das-MaravilhasApesar de todas essas adaptações, em 2010, nossa querida Alice ganhou um novo fôlego e novamente estava na tela do cinema. Uma adaptação dirigida por Tim Burton, estrelada por Johnny Depp no papel de Chapeleiro Maluco e a jovem Mia Wasikowska como uma Alice, que já crescida, retorna ao País das Maravilhas. Um filme visualmente lindo, a fotografia beira a perfeição e a maquiagem dos atores está impecável.

Nós lançamos, recentemente, um belíssimo exemplar com as duas principais obras de Lewis Carroll. Confira nos links abaixo:

Livraria Saraiva

Livraria Cultura